quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Início da sequela Portugal vs Grécia

A partir do dia de hoje, iniciamos uma nova sequela de posts (Portugal vs Grécia). Com esta iniciativa, pretendemos demonstrar as diferenças ou similitudes existentes entre a economia grega e a economia portuguesa. O 1º post será sobre as contas externas dos dois países.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O erro de baixar salários em Portugal


Recentemente, têm sido várias as vozes que se têm manifestado a favor da baixa de salários em Portugal. Aliás, desde o início do plano de ajustamento o FMI tem insistido na necessidade de baixar os custos com salários (quer ao nível dos salários, ou então através da diminuição dos impostos sobre os mesmos).

Porquê esta reivindicação?

1º Actual situação no mercado de trabalho

As crescentes taxas de desemprego é um dos principais problemas da nossa economia. Assim, as autoridades nacionais vêem como umas das soluções para este problema a redução de salários. Para chegar a esta conclusão, baseiam-se na teoria microeconómica, que passo a demonstrar:





















Ou seja, a partir do gráfico anterior, podemos concluir que quanto maior for o salário de referência, maior será o gap entre o número de trabalhadores que procuram os empregadores, e o número de trabalhadores disponíveis para oferecer a sua força de trabalho. Assim, a lógica das autoridades internacionais é a seguinte: ao diminuir, por exemplo, o salário mínimo, isso provoca, teoricamente, uma maior disponibilidade dos empregadores para empregarem, e existem menos pessoas dispostas a trabalhar, o que faz diminuir o desemprego.

2º Os desequilíbrios externos do País











Outro dos problemas detectados em Portugal prende-se com o forte desequilíbrio das contas externas, que segundo as autoridades poderá ser resolvido através da redução de salários

Mas estará este raciocínio das autoridades internacionais correcto?

Comecemos por esmiuçar o primeiro dos argumentos anteriormente apresentados…

Serão as conclusões acima citadas, assim tão simples: não me parece de todo. Há que ter em conta, que uma diminuição salarial global, provoca uma redução do mercado interno. Assim, isto coloca igualmente em perigo milhares de postos de trabalho, uma vez que as pessoas têm menor disponibilidade para consumir. Assim, o que acontece é que para cada nível salarial, a quantidade de trabalho procurada pelos empregadores será menor.




















Ainda assim, sobra outro argumento: uma redução salarial pode resultar em ganhos de competitividade internacional, o que pode reverter os efeitos negativos no mercado interno

1º Olhemos para o comportamento das exportações a ver se temos tido realmente problemas
















Como se pode observar, nos anos mais recentes (com excepção de 2008 e 2009) tem-se registado crescimento apreciáveis do lado das exportações, o que desmonta a teoria de falta de competitividade da nossa economia.

Façamos então a seguinte questão: se por exemplo fizermos uma desvalorização salarial na ordem dos 10%, 15% vamos ganhar posição competitiva face a quem?

À China e aos Países do Leste?

É de todo impossível, pois os nossos níveis salariais são muitíssimo superiores pelo que é uma "miragem" competirmos via custos com estes países.

À Alemanha?

País que é apontado como um exemplo em termos de política de rendimentos. Segundo diversos estudos, os países do sul têm visto os seus custos salariais aumentarem fortemente relativamente face à Alemanha. Mas será isto uma forte causa de perda de competitividade? Não me parece, pois a Alemanha e Portugal têm estruturas de exportações bem diferentes, pelo que não estão muito directamente em confronto.

















Vemos assim, que as estruturas exportadoras da Alemanha e Portugal são bem distintas, sendo que no caso português temos uma predominância de sectores de menor incorporação tecnológica, enquanto que no caso alemão acontece exactamente o contrário, pelo que conclui-se que no caso da desvalorização salarial, os ganhos de competitividade face à Alemanha seriam residuais, e não anulariam a quebra no mercado interno.

Pergunta final: pode-se concluir assim, que a política de rendimentos portuguesa tem sido correcta?

Não, de todo. Isto porque, os níveis salariais têm crescido bem acima dos aumentos de produtividade, o que tem consequências gravosas, principalmente ao nível dos desequilíbrios externos. Para diversos economistas, como Daniel Gros, os desequilíbrios externos deveram-se a um boom da procura interna, devido ao forte aumento do crédito, em resultado da entrada na zona euro. Assim, assistiu-se a um forte aumento da procura de trabalho, principalmente ao nível dos sectores não transaccionáveis, o que se reflectiu numa profunda falta de moderação salarial. O facto destes crescerem acima da produtividade, indica que a produção nacional não foi capaz de responder a este aumento de procura, sendo que para isso, recorreu-se às importações, que aumentaram exponencialmente, contribuindo para os desequilíbrios externos. A complicar tudo isto, o Estado também não foi capaz de ter políticas restritivas, agravando ainda mais o ciclo de desequilíbrio.

Mas isto está a inverter-se...

Se olharmos para as previsões da Balança Corrente, vemos que esta gradualmente está a equilibrar-se, a um ritmo bastante interessante, o que demonstra que neste momento, não existem pressões do lado da procura agregada, que desequilibram as contas. Assim, e uma vez que isto está a acontecer, não me parece serem necessárias medidas de redução de salários (põe não me parece colocar-se um problema de competitividade internacional). Apenas se tratou de um problema de excesso de procura interna, que está a ser resolvido, através das medidas de austeridade. Contudo, futuramente, deve haver um maior rigor da parte da política de rendimentos, e deve-se promover a existências de aumentos salariais ao nível da produtividade, de modo a evitar estes problemas externos.




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O EcosEconomia vai de férias

Caros leitores,

Durante a próxima semana (de dia 11 a 18 Agosto) estarei de férias, pelo que não editarei qualquer post, nem poderei responder a qualquer comentário. No entanto, ainda assim, gostaria de vos lançar um desafio. Ao longo desta semana, poderiam propor futuros temas de debate aqui no blog, que depois terão o devido tratamento da minha parte.

Cumprimentos,

Ricardo Gonçalves

domingo, 5 de agosto de 2012

Soluções para a crise do euro

Antes de mais, não vale a pena estar aqui com grandes considerações acerca de todo o percurso da crise do euro. Este já é sobejamente conhecido. Assim, neste artigo preocupo-me, fundamentalmente, em reflectir sobre que caminhos deve seguir a UEM. Várias propostas já foram analisadas, nomeadamente: o haircut das dívidas, os eurobonds e ainda a existência de um novo papel para o BCE. Analisemos então cada uma destas propostas:

1 – Haircut das dívidas

Esta tem sido uma das medidas defendidas, principalmente por alguns partidos mais à esquerda. Será esta solução possível, e sendo assim quais serão as suas consequências? Primeiramente, esta é possível, contudo parece-me que é algo que pode ser muito negativo, na medida em que pode afastar estes países por vários anos dos mercados financeiros, bem como aumentar, significativamente, os custos de financiamento do Estado e dos privados, o que tem efeitos negativos no investimento e no crescimento. Para demonstrar isto, pego num caso que remonta ao início do século XXI ( a crise argentina), que sofreu os efeitos de uma bancarrota

Taxa de crescimento do PIB real argentino


1999
-3%
2000
0,8%
2002
-14,7%
               Fonte: IndexMundi

Como vemos pelo gráfico, a economia argentina sofreu imenso com o incumprimento de dívida. É verdade que, posteriormente a economia argentina recuperou, mas nestes anos sofreu uma quebra do PIB de cerca de 20%. No caso da Argentina, este incumprimento era inevitável, contudo no caso da UE parece-me que as circunstâncias são diferentes, principalmente pelo facto de o Euro ser internacionalmente uma moeda de referência, ao contrário do peso argentino, o que implica que os países do euro se possam financiar internacionalmente na sua própria moeda. Assim, como mostrarei à frente, este é um facto importante para delinear outro tipo de soluções.

2 – Eurobonds

Este tipo de obrigações tem sido apontada como outras das soluções para resolver a crise europeia. No entanto, tal solução parece-me que dificilmente será exequível, na medida em que países como a Alemanha, não aceitarão que os seus custos de financiamento aumentem consideravelmente, na medida em que nestas será incorporado o risco dos países do sul da Europa. Para além disso, este mecanismo não afasta um risco sempre presente que é o de incumprimento dos países. Finalmente, parece-me que caso a zona euro resolva os seus desequilíbrios não são necessários os eurobonds para os custos de financiamento dos países aproximarem-se ( ver figura seguinte).


  
Como se vê, antes do início desta crise financeira, as taxas de juro dos países da UEM eram relativamente similares. Assim, parece-me o que deve fazer, na minha opinião, é criar as condições para que isto volte a acontecer e não forçar, através da criação dos eurobonds, que cheguemos a esta situação. Assim, com os eurobonds penso que a qualquer altura, pode acontecer que haja um ataque especulativo a estes, aumentando seriamente as taxas de juro, fazendo com que países como a Alemanha tenham tendência a sair deste mecanismo. Parece-me então que é necessário uma solução mais forte, e que traga mais vantagens para os países. Que solução é essa?


Intervenção do BCE

A chave para a solução da crise parece-me a intervenção do BCE. Assim, o BCE deve funcionar como um credor de último recurso, garantindo o pagamento das dívidas dos países, bem como o seu serviço de dívida. Parece-me que esta solução face ao eurobonds, tem a vantagem de ser mais credível, em caso de aplicação, bem como de afastar quase por completo, o risco de incumprimento, o que faz com que as taxas de financiamento sejam ainda mais baixas.

Quais as reservas da Alemanha?

Contudo (como se viu nesta semana anterior), a Alemanha tem muitas reservas em relação a uma forte intervenção do BCE. Porquê? Tal deve-se ao profundo medo que a Alemanha tem da inflação (aliás se forem ao site do BCE, este apresenta-nos a inflação como um monstro). Contudo, isto poderá ser ultrapassado. Como? Primeiro há que frisar, como já demonstrei num post, a garantia sobre dívidas passadas não cria inflação. Esta resulta de pressões sobre a procura agregada, e esta acumulação de dívida já criou estas pressões no passado. No entanto, a Alemanha tem medo que no futuro, isto seja uma almofada para estes países incumpridores que a verão como um incentivo a mais endividamento.

Assim, o que deve ser feito?

Devem ser criados um conjunto de critérios, nomeadamente alguns já bem conhecidos, tais como os orçamentais. No entanto, deve ser acrescentado outro igualmente importante que diz respeito ao equilíbrio da Balança Corrente. Se analisarmos os países resgatados vemos que estes apresentam um ponto em comum (que é o desequilíbrio desta Balança). Se analisarmos o caso argentino (país que tem registado uma apreciável recuperação económica), vemos que antes do rebentar da crise, esta economia acumulou sucessivamente desequilíbrios da Balança Corrente, que foram resolvidos no pós-crise, registando-se actualmente um equilíbrio dessa mesma Balança



Como se comprova, os sucessivos desequilíbrios externos, resultaram numa bancarrota. Contudo, após isso, esse rumo inverteu-se. No entanto, como sabemos a Argentina não está agrupada numa área monetária, o que faz com que tenha ao seu dispor a política cambial (aliás, por detrás deste incumprimento, esteve a adopção de um regime de câmbios fixos face ao dólar, o que criou graves desequilíbrios). Assim, para o caso dos países do sul estes equilíbrios são possíveis? Para responder a esta questão, analisemos a evolução desta Balança, após as medidas de austeridade. Para o caso português em 2013 atingiremos já o equilíbrio desta Balança Corrente. Para o caso irlandês esse equilíbrio já foi atingido. Assim, isto só mostra que estes desequilíbrios foram frutos de pressões excessivas do lado da procura, que podem perfeitamente ser resolvidas no interior de uma área monetária.
Assim, também deve ser uma prioridade dos países este equilíbrio, e deve ser um dos critérios para uma nova zona euro.

Conclusão

Assim, parece-me que a melhor solução é a intervenção do BCE, já que só esta fará com que haja uma aproximação não artificial dos custos de endividamento, e nivelando os mesmos por baixo, já que praticamente aniquilam os riscos de incumprimento. Assim, é uma melhor solução que os eurobonds. No entanto, como se demonstrou para o caso argentino, deve-se promover os equilíbrios macroeconómicos, nomeadamente o da Balança Corrente, que como se demonstra para o caso argentino, contribuiu para o recomeçar de um período de crescimento. Relativamente ao haircut, não me parece uma boa solução, pois estando numa área em que os países se endividam na sua própria moeda, não há o risco de haver pressões especulativas, no sentido da desvalorização da moeda, já que as expectativas no caso europeu desempenham um papel fundamental. Assim, há espaço para o BCE garantir as dívidas, em contrapartida de critérios exigentes e que devem ser para cumprir.

Publicado no Blog O Ouriço a convite de Nélson Faustino

domingo, 29 de julho de 2012

O papel central do BCE na crise actual

São cada vez mais numerosas as vozes que reclamam uma intervenção forte do BCE na crise actual. A mim parece-me que essa é uma solução credível e absolutamente necessária para ultrapassar os actuais constrangimentos que ultrapassa a Zona Euro. Para justificar este ponto de vista, será decisivo, em primeiro lugar, tentar perceber os motivos que têm levado as autoridades europeias a rejeitarem ( pelo menos, até agora, embora se esperem algumas novidades já na próxima quinta-feira) esta intervenção do BCE.


Principal constrangimento à intervenção do BCE: o objectivo taxa de inflação

Nos estatutos do BCE consta como principal objectivo a manutenção da estabilidade de preços, com um valor de referência para a taxa de inflação de cerca de 2%. Não vale a pena entrarmos aqui em considerações sobre a plausibilidade ou não deste valor, mas num ponto a classe económica está de acordo, uma taxa de inflação baixa é fundamental para fomentar o crescimento e a competitividade. Assim, de que modo este objectivo pode ser um constrangimento à intervenção do BCE?







Para respondermos a esta questão, deveremos usar uma equação fundamental em economia, que nos indica que a inflação surge em resultado de um excesso de crescimento do stock de moeda face ao PIB potencial. Assim, este facto deverá ser um travão a uma intervenção fortemente expansionista do BCE.

Mas será que, embora comprovada empiricamente, esta relação apresentada pela equação seja assim tão linear?

Não o é, de todo. Antes de tudo, importa frisar que o M apresentado na equação diz respeito à massa monetária e não à base monetária (variável esta que corresponde à emissão de moeda por parte do BCE). Relativamente à massa monetária, esta resulta da acção dos multiplicadores monetários, nomeadamente, o crédito. Assim, é perfeitamente possível verificarmos uma desconexão entre base e massa monetária.



A partir das figuras nota-se que essa interligação não é directa, uma vez que mesmo a base monetária aumentando, tal não teve reflexos na massa monetária, muito por culpa da quebra profunda do crédito, em especial às famílias, mas também às empresas. Isto revela o carácter de combate à falta de liquidez da intervenção do BCE durante a crise de 2008. Esta mesma intervenção não está a ter reflexos inflacionários até agora.

Como se desencadeia o processo inflacionário numa economia via política monetária?

A equação anterior fazia crer que o Banco Central ao emitir mais moeda, estaria imediatamente a fazer com que a prazo se desencadeasse uim processo inflacionário. No entanto, tal não corresponde de todo à verdade, uma vez que para que tal aconteça é necessário que se desencadeiem um conjunto de processos de transmissão da política monetária, nomeadamente, e por exemplo, o canal do crédito. A inflação é um processo que resulta de um aumento da pressão da procura agregada face à oferta agregada. Assim, a evidência para a crise de 2008 parece indicar que na presença de uma crise de liquidez, o aumento da base monetária não tem efeitos sobre a procura agregada, o que não induz pressões inflacionistas.

Replicando esta evidência para a crise das dívidas soberanas...

Parece após o exposto que as autoridades europeias não devem ter preocupações com a inflação. Assim, para justificar tal facto faço a seguinte questão:

De que resultam as dívidas acumuladas?

São resultado de um conjunto de pressões do lado da procura, que incentivaram grandemente o consumo e o investimento. Assim, estas pressões tiveram os seus efeitos no passado, que não serão replicados no futuro. Vejo o dinheiro deste endividamento como algo que deveria existir e não existe, pelo que me parece que o BCE pode ter um papel fundamental, devendo garantir aos mercados que está totalmente disposto a assumir as dívidas dos países em dificuldade (caso seja necessário) e a garantir o cumprimento do serviço da dívida. Tudo isto é compatível com o objectivo inflação, pois este dinheiro deveria existir e já teve efeitos sobre a procura agregada no passado, e consequentemente sobre a inflação.

Mas os mais cépticos deixarão logo uma questão no ar... Isto poderá no futuro ter efeitos sobre a inflação, já que os países terão uma sensação de facilitismo..

Relativamente a esta questão, concordo na totalidade com o argumento expresso, e para isso defendo que esta mudança de papel por parte do BCE ( funcionando a partir daqui, como um credor de último recurso) seja, igualmente, acompanhado por um conjunto de crítérios apertados, que tenham como objectivo fazer com que os países tenham constantemente necessidade de tomar medidas que não sobreaqueçam a economia e não a desequilibrem, voltando a termos uma rota de endividamento insustentável. Assim, questões como o controlo das contas públicas, bem como o equilibrio da Balança Corrente dos países, devem estar na agenda das autoridades. Assim, percepciono uma união com novos mecanismos, mas esses devem surgir com contrapartidas que garantam o sucesso destes. A intervenção do BCE não deve ser vista como um brinde, mas como um ponto de partida para mais rigor dos países. As sanções para quem não cumpra estas regras, deverão ser fortes, sendo em casos extremos a própria expulsão dos países permanentemente incumpridores.

Conclusão

Esta nova conjectura que apresentei, revela um ponto de vista que defende uma união cada vez mais independente dos mercados financeiros, sendo que as pressões para o cumprimento das regras deverão partir da própria união e não dos mercados. Assim, isto evita que a UEM ande a "reboque" dos mercados, tendo estratégias de equilibrio próprias.

domingo, 22 de julho de 2012

Terá o Euro realmente retirado competitividade à Economia Portuguesa

São diversos os comentadores e economistas que defendem que o Euro retirou competitividade à nossa economia. Assim, defendem que a economia portuguesa não tem capacidade para estar num sistema de câmbios fixos e desse modo, a solução para readquirirmos competitividade seria o regresso ao escudo.

Em que é que se baseiam este grupo de pessoas?

 Evolução da Balança Corrente











Antes de mais, quais as variáveis que inclui a Balança Corrente?

B. Corrente = B. Bens e serviços (exportações - importações) + B. Rendimentos (pouco significativa no caso português) + B. Transferências (ex: remessas de imigrantes).

Sendo a B. Bens e serviços, a componente fundamental da mesma, esta no fundo é resultado do valor da importações e das exportações. Olhando para os dados anteriores, somos automaticamente tentados a dizer que, de facto, a economia portuguesa tem perdido competitividade. Mas estará isto correcto? Como se mede realmente a competitividade? Esta deve ser vista sempre pelo lado da variação das exportações. Uma vez que a Balança Corrente também incorpora o efeito das importações, não serve como medida adequada de competirividade.

Olhemos então para o que se tem passado do lado das exportações...
















Assim, estamos em condições de analisar, efectivamente, a evolução da competitividade dos produtos nacionais. Observamos, a partir da análise do gráfico, que a partir de 2002 e até 2005 registam-se taxas de crescimento das exportações inferiores às do período pré-euro. Quererá isto dizer, automaticamente, que o euro condicionou a nossa competitividade? Não, de todo. Temos de ter em conta que neste período entraram em cena no mercado internacional, países asiáticos como a China, cuja estrutura de exportações assenta em produtos de baixa tecnologia, ou seja, de mão-de-obra intensiva. Será que estes países afectaram a posição internacional de Portugal? Para respondermos a isto, observemos a estrutura de exportações nacionais no período pré-euro.



Assim, olhando para estes dados, verificamos que antes da adesão ao euro, a economia portuguesa tinha uma estrutura claramente assente em produtos de mão-de-obra intensiva, tal como estes países que entraram em cena nos mercados internacionais. A questão fundamental é a seguinte: seria possível num sistema de câmbios flexíveis responder a esta nova concorrência? Não me parece, uma vez que o salário mínimo chinês ( por exemplo) é muito inferior ao português (para termos uma noção, na zona mais rica da China, Xangai, existiu um aumento para 177 euros, em contraste com os 485 euros nacionais. No entanto, na maioria dos estados chineses estes valores são muito inferiores a 177 euros. Para além disso, o número de horas de trabalho na China é bem superior). Assim, para chegarmos a estes patamares seria necessário uma fortíssima desvalorização da moeda, que seria totalmente incomportável, uma vez que geraria na economia portuguesa um elevado processo inflacionário, com graves consequências. Para além disso, este processo inflacionário reverteria em parte os efeitos da desvalorização da moeda, já que a inflação corresponde a um agravamento dos preços. 

Assim, neste caso, os câmbios flexíveis não reverteriam estes efeitos. Que tipo de ajustamento deve existir?

Deverá haver um novo padrão de especialização da economia nacional, assente em produtos de maior incorporação tecnológica (não quero dizer com isto, que o caminho é a alta tecnologia). Será que a economia portuguesa tem caminhado nesse sentido?


Olhando, para a estrutura de exportações após a adesão ao euro, vemos que o peso dos produtos de baixa tecnologia diminuiu expressivamente, tendo os restantes tipos de produtos ganho peso na estrutura de exportações, com especial destaque para os de alta tecnologia. Ou seja, a economia portuguesa tem-se ajustado gradualmente. 

A questão final é a seguinte: tem tido este ajustamento resultados?

Recuperando o gráfico da variação das exportações, observamos que a partir de 2006 as exportações têm registado uma nova dinâmica, sendo este ano o de maior crescimento dos últimos 22 anos. Em 2007 manteve-se esta tendência de forte crescimento que só foi revertida em 2008 e 2009, devido à crise do subprime. Em 2010 e 2011 regressaram as fortes taxas de crescimento das exportações, ao nível das melhores que se registaram nos anos 90.

Conclusão

Assim, conclui-se que de forma alguma o euro é a causa da suposta perda de competitividade nacional. Esta foi fruto de um novo contexto internacional, ao qual Portugal nunca poderia reagir com medidas de desvalorização cambial (mesmo que estivesse num regime de câmbios flexíveis). Assim, o ajustamento deve (como tem vindo a acontecer) ser efectuado via estrutura exportadora, o que tem tido sucessos assinaláveis.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A estratégia da "defesa" da austeridade

Na sociedade portuguesa tem-se assistido nos últimos tempos a uma onda crescente de contestação à austeridade imposta pelas autoridades nacionais e internacionais, vinda dos mais variados sectores. O Governo tem teimado em manter a linha que tem vindo a ser seguida. O que de seguida discutiremos será a plausibilidade ou não desta posição governativa.


Deverá ou não flexibilizar-se o plano de ajustamento?

Parece-me que o plano deve ser ajustado, devido aos números que sucessivamente têm vindo a publico, nomeadamente, os valores do desemprego, bem como os valores das receitas fiscais que caíram a pique, ainda que as taxas nominais dos impostos até tenham aumentado. Isto demonstra, claramente, o actual estado do nosso mercado interno, pelo que "atacá-lo" ainda mais pode ter consequências gravosas para a economia, e fazer desta 2ª década do século XXI mais uma década perdida, tal como foi a 1ª, com taxas de crescimento do PIB verdadeiramente anémicas. Em linhas gerais, estes motivos apresentados são suficientemente fortes para demonstrar que a receita da austeridade extrema deve ser repensada. (Futuramente, apresentarei um post sobre as vantagens da flexibilização e a sua importância)

Então, após o que foi referido, a posição do Governo, mal tendo percebido os efeitos da austeridade, deveria vir a público e comunicar às instâncias internacionais que desejaria reajustar o memorando?

Por mais paradoxal que seja, tendo em conta o que foi referido atrás, o Governo nunca deveria vir a público defender de forma prematura este tipo de solução, uma vez que tal poderia ser mal visto junto dos mercados. A nossa principal preocupação deve ser a nossa credibilização, no sentido do Estado Português voltar a beneficiar de financiamentos mais vantajosos, tendo isto um efeito dominó junto da economia portuguesa, uma vez que as taxas de juros pagas pela República servem de referência para o sector privado.  Para demonstrar aquilo que acabei de referir, vou apresentar dois casos (um referente a Espanha e outro referente à Grécia)


Caso Espanhol














Quando em Novembro de 2011, Mariano Rajoy assume a chefia do Governo Espanhol, assume imediatamente que não será possível cumprir as metas estabelecidas para o défice e exige publicamente um reajustamento das metas orçamentais. Os mercados reagem negativamente a este facto, o que se reflectiu num profundo agravamento das taxas de juros exigidas (ver figura anterior). Valeu ao Estado Espanhol, a intervenção do Banco Central Europeu, que fez uma compra maciça de títulos de dívida pública espanhola em mercado secundário. Ou seja, está aqui um primeiro exemplo de como os mercados reagem a este tipo de situação.


Caso Grego














Quanto ao caso grego, a situação apresentada é mais actual. É sabido que recentemente (durante o mês de Maio) a Grécia passou por um período de grande turbulência política, dada a indefinição na formação de uma solução governativa estável. Assim, o aumento das taxas de juro incorpora esta variável. No entanto, também a existência de um partido de extrema esquerda que teve perto da vitória, e que tinha como principal bandeira eleitoral o incumprimento dos acordos estabelecidos com o exterior também contribuiu para este aumento. Após passado este período, as taxas de juro sobre as obrigações gregas têm vindo a descer ( ver figura anterior), embora de uma forma algo lenta, e em níveis ainda superiores aos que se registavam antes de todo o período de turbulência política. Tal deve-se à vontade do Governo actual renegociar o acordo, algo que põe desde logo em causa a credibilidade das instâncias gregas, que já de si se encontram bastante fragilizadas. Não digo com isto, que o acordo não deve ser renegociado, mas ser o Governo o primeiro a dizê-lo logo após a sua eleição, cria de uma certa forma uma imagem de continuidade com aquilo que tem sido a "trapalhada grega".

Então, qual a posição mais sensata do Governo Português? Dizer que cumpre o plano "custe o que  custar"?

A expressão "custe o que custar" já foi referida pelo nosso Primeiro-Ministro e não me parece que tenha sido a mais correcta. Há que fazer um "trade off" entre as expectativas nacionais e as internacionais. Quer uma quer outra são fundamentais para o andamento dos principais agregados macroeconómicos (consumo, investimento, etc). Relativamente às nacionais, estas são fundamentais, na medida em que os nossos agentes económicos decidem investir mais ou consumir mais em função das suas expectativas para o futuro. Assim, se o Primeiro-Ministro vem dizer que cumpre o plano "custe o que custar" dá uma indicação fortíssima de que se poderão aproximar novas medidas de austeridade, o que deprime o consumo e o investimento (via expectativas dos agentes nacionais). Quanto às expectativas internacionais, estas reflectem-se nas taxas de juro da República Portuguesa, que afectarão os custos de financiamento dos agentes nacionais, e como é sabido, quanto piores as expectativas, maiores serão as taxas de juro da República, e consequentemente dos agentes económicos, o que irá reflectir-se em níveis de investimento e de consumo mais baixos.

Conclusão

Deve ser feito um balanço entre as condições nacionais e internacionais. Não defender acerrimamente a austeridade, mas mostrar firmeza no cumprimento das metas, mas expressões como "custe o que custar" não são bem-vindas. Devemos para fora ter um discurso de rigor, mas por outro lado, junto das instâncias europeias deveremos fazer ver que o caminho da extrema austeridade ( a austeridade será sempre um remédio necessário) pode ser mortífero. Assim, parece-me que o que vai acontecer para o caso português (e diga-se de passagem, que é melhor dos caminhos) é o reajustamento do plano, que será efectuado passando sempre para o exterior a imagem de que se trata de um bónus para os esforços que têm vindo a ser efectuados pelos portugueses. Esta, como já disse, trata-se da melhor solução por diversos motivos, tais como: tenta passar uma imagem de credibilidade das instâncias nacionais, apesar da má execução orçamental; livra o país de mais austeridade, o que poderia ter um efeito perverso nas contas públicas (perda de eficácia das medidas); livra o Governo de ter de ser ele a reconhecer um possível falhanço orçamental, e assim evita uma grande perda de credibilidade, o que seria muito mal visto pelos mercados.